


Uma das características mais marcantes da filmografia de Abbas Kiarostami, ao longo de mais de quatro décadas de carreira, foi o jogo que ele estabeleceu entre realidade e encenação, explorando a porosidade das fronteiras que pretendem distinguir o documentário da ficção. Gosto de pensar em Kiarostami como um cineasta da crise da imagem. Está em voga, hoje, a ideia de que a inteligência artificial danificou nossa relação de confiança com a imagem – diante das imagens construídas pela inteligência artificial, não sabemos mais distinguir o que é real do que é criação da tecnologia. Mas, qualquer um que já assistiu filmes como “Close-Up”, “E a Vida Continua” e “Através das Oliveiras”, por exemplo, percebe a instabilidade das distinções entre o documental e a ficção (aliás, esta instabilidade perpassa toda a história do cinema, desde os irmãos Lumière, de Flaherty a Rouch, de Rossellini a Kiarostami). Estas obras de Kiarostami fazem com que realidade e invenção se reflitam mutuamente, e o cinema passa então a investigar sua própria capacidade de representar o mundo. Kiarostami questiona a natureza da imagem e o limiar entre a experiência vivida e sua inscrição cinematográfica. É toda uma ideia de realismo, atrelada aos pressupostos da verossimilhança, transparência e representação, que se desestabiliza. Este será um dos pilares de nosso curso. Mas não só.
Nascido em Teerã, Kiarostami iniciou sua trajetória cinematográfica em 1970 no Instituto para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens, onde realizou filmes voltados ao universo infantil. Desde essas primeiras obras, já estavam presentes características que atravessariam toda a sua filmografia: o olhar profundamente humanista, a atenção ao cotidiano, a confiança nos gestos mais simples, a economia dos meios, o rigor formal. Inspirado inicialmente pelo neorrealismo italiano (Rossellini e De Sica, principalmente), por Robert Bresson e Yasujiro Ozu, Kiarostami rapidamente encontrou um caminho próprio.
Quase todos os seus filmes nascem de uma busca. Em “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?”, uma criança procura pela casa de seu amigo, como antecipado pelo título. Em “O Passageiro”, mais uma criança como protagonista, desta vez em busca de dinheiro para ir ao estádio de futebol. Já em “Gosto de Cereja”, um homem busca por alguém que possa lhe ajudar com seu objetivo. Em “E a Vida Continua”, um cineasta busca reencontrar os atores de seu último filme. Essas buscas, aos poucos, no silêncio e na contemplação, vão adquirindo uma outra configuração, da ordem de uma jornada existencial, onde o desejo que movimenta os personagens acaba assumindo sua face épica ao longo do trajeto.
Aliás, são estes trajetos, ou melhor, a viagem por estes trajetos, o que torna estas buscas dotadas de encantamento e fascinação. O Cinema de Kiarostami opera uma "poética do deslocamento", onde estradas, carros e caminhadas proliferam (com pouquíssimas cenas, em toda sua filmografia, filmadas no interior das casas), seus personagens sempre em movimento, empreendendo suas jornadas cujo destino é menos um ponto de chegada do que uma abertura gradual para indagações sobre ética, identidade, verdade, morte e representação. Kiarostami é, por isso mesmo, um raro diretor de roadmovies: seus filmes são um espaço para observação e investigação, no qual personagens, diretor e espectadores compartilham o mesmo percurso, as mesmas paisagens, e o mesmo processo de descoberta (mesmo que essa descoberta seja, muitas vezes, a da incompletude e da incerteza que caracterizam a experiência humana).
Ao mesmo tempo, sua linguagem é marcada por uma extraordinária economia de meios. Longos planos, elipses narrativas, diálogos aparentemente banais, paisagens filmadas com serenidade e um uso extremamente preciso do som criam uma experiência que exige a participação ativa do espectador. Muitas vezes, acontecimentos decisivos permanecem fora de campo; outras vezes, a imagem e o som parecem caminhar por caminhos distintos, frustrando expectativas narrativas e obrigando o público a preencher as lacunas. Kiarostami convida cada espectador a construir seu próprio percurso diante das imagens.
Essa combinação singular entre rigor formal, experimentação e profunda compaixão pela humanidade fez de Kiarostami um dos grandes renovadores do cinema moderno. Seus filmes unem a simplicidade emocional do neorrealismo a uma sofisticada reflexão sobre a linguagem cinematográfica, produzindo obras ao mesmo tempo intelectualmente desafiadoras e profundamente comoventes.
Ao longo de quatro aulas, vamos analisar os principais aspectos estéticos, narrativos, formais, temáticos e filosóficos de sua filmografia, usando um filme por aula como guia, mas sempre o colocando em diálogo com o restante de sua filmografia.
E aí, vamos nessa?
Como funciona o CineCuti?
Os Principais Filmes da Edição

Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987)

Close-Up (1990)

Gosto de Cereja (1997)

Dez (2002)

Cronograma
Terças ou Quintas às 19h
28/07
Aula 1 - Onde Fica a Casa do Meu Amigo?
Influência do Neorealismo, o cinema iraniano pós-revolucionário, análise do filme: Depuração Visual, A Simplicidade da Composição, Elementos Estruturantes da Narrativa, A Economia dos Cortes, Contenção dramática, Poética do Deslocamento (Bernardet), A Infância como via poética e política para o Cinema Iraniano.
04/08
Aula 2 - Close-Up
As Fronteiras entre Verdade e Encenação no Cinema, Metanarrativa e Autoreflexividade, Montagem Não-linear, Narrativa Fragmentada, Representação e Poder, Cinefilia, Realismo.
18/08
Aula 3 - Gosto de Cereja
O Uso do Campo e do Fora de Campo, As Longas Durações dos Planos, Elipses, Minimalismo Narrativo, Composição Geométrica dos Espaços, Recusa à Psicologização, Desinformação como estratégia de Narração, Existencialismo.
25/08
Aula 4 - Dez
A Passagem de Kiarostami ao Digital, Radicalização do minimalismo, Cinema-dispositivo, O Colapso da Mise en Scéne, Frontalidade, Improvisação Controlada, Deslocamento entre Documentário e Ficção, Mulher, maternidade, religião e tensões da vida cotidiana no Irã.
Professor
João Marcos Albuquerque
Cineasta Independente, Crítico e Professor de Cinema, criador do Filmes Cuti. João Albuquerque é o diretor do filme "Somos Nossos Mortos. E as Árvores?", cuja estreia mundial ocorreu no Slow Film Festival 2025 - um dos festivais internacionais mais relevantes dedicados ao Slow Cinema. Mestre em Filosofia pela UFRJ, Júri do Festival Lumen 2025, autor de críticas, ensaios e artigos publicados em mídias como Outras Palavras, Midia Ninja e Cine Ninja, além de produzir todo conteúdo do Filmes Cuti. Professor do CineCuti, com mais de mil alunos inscritos em seus cursos e mais de 250 horas de aulas ministradas e gravadas sobre história, teoria e linguagem do cinema.

Investimento
CineCuti Edição O Cinema de Abbas Kiarostami - R$120,00
Pacote Promocional com três edições do CineCuti - disponível apenas para turma de quinta - R$306,00
O pagamento é realizado com toda segurança pelo PagSeguro.

Próximas Edições

25ª Edição:
O Cinema de Robert Bresson e seus Herdeiros Contemporâneos
Início - 15/09/2026

26ª Edição:
Nouvelle Vague Japonesa
Início - 27/10/2026


