Adeus, Béla Tarr
- João Marcos Albuquerque

- há 13 horas
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Béla Tarr morreu. Morreu como um dos raros cineastas a ter se aposentado do cinema de forma voluntária e declarada publicamente. Durante as gravações de O Cavalo de Turim (A Torinói Ló, 2011), Béla disse que este seria seu último filme, pois não restaria mais nada a dizer. Cavalo de Turim já nasce sob este estranho estatuto de ser o último, o trabalho artístico derradeiro de um cineasta vivo e ainda com pleno controle de seus poderes, que dá por concluída a sua jornada artística. Isto nos facilita a percepção de que devemos enxergar a obra de Tarr como um conjunto de trabalho dotado de assustadora coesão e unidade conceitual, temática e estética, sendo a materialização de um projeto de vida. A obra de Tarr, portanto, pode ser acessada através desse prisma, como um projeto, com início, meio e fim. E que projeto seria esse? Sem meias palavras, pois Béla não era adepto delas: o esgotamento da vida, e de como o cinema pode manifestar esse esgotamento.
Os primeiros filmes de Béla trabalham no registro de um realismo social. De Ninho Familiar (Családi Tüzfészek,1979) até Pessoas Pré-fabricadas (Panelkapcsolat,1982), o mundo representado é ruidoso, a câmera buscando enquadrar as classes trabalhadoras, os mais pobres e desafortunados, em suas rotinas opressivas naquela Hungria cujo regime comunista esgotava-se. Com Almanaque de Outono (Oszi Almanach, 1984) vem uma ruptura, um filme colorido, com posicionamentos de câmera inusitados, mas já exibindo uma estilização que viria a caracterizar o que András Bálint Kovacs chama de "segunda fase"¹ de sua carreira, cujo início se dá após Almanaque de Outono, com Danação.
De Danação (Kárhozat, 1988) até Cavalo de Turim, Béla atinge sua maturação estética. São por estes filmes que reconhecemos o gênio. Quando se fala em Béla Tarr, lembramos destes filmes e de suas atmosferas. De Danação à Cavalo, percebe-se, filme após filme, a realização de seu projeto: há um esgotamento da narrativa, cada vez mais rarefeita, dispersa pelo tempo e pelo espaço de seus mundos. Há um esgotamento da esperança, de humanidade - lembrem-se do protagonista Karrer, que vira um cão em Danação. O fato de Karrer virar um cão não significa imputar ao cão um rebaixamento ontológico, mas um rebaixamento do homem, que vai perdendo as qualidades que o definem enquanto tal. Há um definhamento do corpo na obra de Tarr: basta pensarmos novamente em Karrer, que termina o filme sobre quatro patas, e o protagonista de Cavalo de Turim, com seus membros paralisados desde o início do filme. Há uma redução drástica dos elementos cênicos, em direção à um minimalismo cada vez mais acentuado. Uma redução de mundo: das pessoas que habitam e atravessam as cidades, pradarias e imensos espaços abertos de O Tango de Satã (Sátántangó, 1994), para o interior claustrofóbico de uma casa oprimida pelo vento, habitada por apenas dois humanos e um cavalo. Há, por fim, o esgotamento da luz - penso na última cena de Sátántangó, onde o personagem do doutor obstrui as janelas com tábuas de madeira, impedindo a entrada da luz, restando apenas a escuridão no interior da casa. Ou mesmo a última cena de O Cavalo de Turim, onde primeiro desaparecem os animais (cessam os zumbidos dos cupins), depois a água do poço, seguida do vento, do fogo que alimenta o fogão e a lamparina, e finalmente, cessa a luz. Estes finais são ao mesmo tempo o fim daquelas vidas, daqueles mundos, daqueles filmes, assim como são o fim da própria possibilidade de se fazer cinema, pois que este depende da luz. Seus filmes fazem coincidir o fim do cinema com o fim da vida.
Este esgotamento gradual, mas inevitável, em direção ao fim, o torna companheiro da poesia de T.S. Elliot, The Hollow Men:
"This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper."
(É assim que o mundo acaba É assim que o mundo acaba É assim que o mundo acaba Não com um estrondo, mas com um gemido.)
Os mundos de Béla terminam com um simples apagar das luzes, onde ainda é possível discernir alguns gemidos no breu. Essa é sua forma característica de fechar as cortinas.
Não há, contudo, uma esgotamento da opressão, da mentira, da mesquinharia. Os mundos de Tarr são regidos por traições, tramoias, manipulações que visam a subjugação de muitos para o empoderamento de poucos. Em um mundo em declínio, são estas as qualidades que sobressaem. A ruína vai se instalando aos poucos, nesse tempo dilatado e encalhado de seus filmes. Tarr vivenciou a ruína da utopia comunista na Hungria, e essa vivência atravessa suas obras, mesmo que de forma sugestiva, não explícita.
À esse deterioramento da humanidade, Tarr contrapõe os animais. Gosto de pensar o cinema de Tarr como um gesto discreto contra o antropocentrismo nas artes, em seu destacamento ético concebido aos animais. Em As Harmonias de Werckmeister (Werckmeister Hamóniák, 2000), é a baleia morta que irradia o sublime, ao comparar a pequenez humana diante das demais criações monumentais da natureza. Em Sátántángo, não consigo me desprender da imagem da coruja, que assiste impassível ao desmoronamento daquela pequena comunidade, observando a queda com seu olhar altivo, já enaltecido por diversas filosofias como o olhar do mais sábio. E claro, o Cavalo, um dos protagonistas de Cavalo de Turim, que é a bússola moral daquele mundo, o rompante ético que incandesce os desígnios do filme, ao desobedecer seu mestre e resistir ao trabalho forçado, afirmando sua soberania em meio àquele mundo varrido de sentido pelo vendaval incessante. A desobediência é um dos atributos mais nobres encontrados na filmografia de Tarr. Não é o suficiente, contudo, para evitar o fim, pois o cinema de Béla é sobre a imposição do fim.
Tarr, em um determinado momento de sua vida, e eu diria que foi ali, antes de realizar Danação, percebeu, e agora eu cito o mestre numa entrevista, "que o maior problema a assolar a humanidade não é de ordem política, mas ontológica"². Nesta entrevista, ele ressalta a óbvia relevância da política para se chegar a um mundo mais justo, igualitário, mas adverte que, mesmo em uma sociedade sem classes, haveria o problema ontológico, metafísico, cosmológico, no qual estamos todos e tudo em direção à extinção. É uma questão filosófica, mas também física: é a entropia, essa condição inevitável a qual toda energia, no universo, tende a se dissipar. É por isso que Jacques Rancière fala sobre os “movimentos cósmicos”³ de Tarr: porque tudo em seu mundo obedece a uma função cósmica.
O cinema do Tarr, portanto, não seria necessariamente niilista ou pessimista se pensado nestes termos. Mas há momentos de otimismo, lembro-me claramente de um. É sobre János, o protagonista de As Harmonias de Werckmeister, na primeira cena do filme, no bar (e se há um ambiente onipresente na filmografia de Tarr, é o bar). János está rodeado de beberrões, e coordena todos eles na realização de uma dança cósmica que ilustra para os presentes o funcionamento mecânico do universo. Nessa demonstração, János descreve o comportamento dos astros, a coreografia celeste ensejada pela Terra, a Lua e o Sol. Em uma das raras cenas de puro otimismo da filmografia, pois János é um dos únicos personagens plenamente bondosos que habitam esse cosmos, János diz que é inevitável o eclipse, a chegada da escuridão. Mas - e agora temos a presença excepcional de um "mas" - a escuridão é momentânea, o eclipse tem uma duração limitada. Em breve o sol será desobstruído e voltará a nos iluminar. A descrição cósmica de János, no entanto, não serve como metáfora de nossa condição, mas apenas como alívio pueril. János termina o filme aprisionado, institucionalizado como louco, a cidade foi tomada por uma fúria silenciosamente ensurdecedora, o hospital foi destruído e seus pacientes foram linchados sem motivo aparente, o Príncipe reinou sobre o Santo tolo que é János. E isso, para Tarr, é realista em determinado grau.
Como professor de cinema, já realizei dois cursos sobre Tarr. Mais de 120 alunos somados, apaixonados ou dispostos a conhecerem a obra desse gigante. É um número alto de adesão, para meus padrões. Os cursos servem como prova da influência de Tarr na cinefilia contemporânea, pelo menos naquela que eu tenho proximidade. Há muitos adeptos de Tarr por aqui no Brasil, bem mais do que parecemos crer.
Como cinéfilo, lembro-me da rachadura existencial causada pela primeira obra de Tarr que assisti, O Cavalo de Turim. Hoje é fácil perceber que este filme dividiu minha vida em um antes e um depois. Na época, contudo, eu vivia essa ruptura. Encontrava-me, após a sessão, em queda livre naquele abismo aberto pelo filme sobre meu chão. Aproveitei cada segundo da queda, afinal, era tácito o conhecimento de que eu jamais despencaria daquele jeito novamente.
E por último, e não menos importante, falar do cinema de Béla é falar também da sua equipe artística, quase sempre formada pelos mesmos integrantes: Gábor Medvigy (diretor de fotografia), Ágnes Hranitzky (montadora), Mihaly Vig (trilha sonora e desenho de som), László Kraznahorkai (roteiro) e Gyula Pauer (diretor de arte). Inclusive, em diversos filmes, como em Danação, por exemplo, os créditos não destacam a figura do diretor isoladamente, mas os nomes que compõem esta equipe. Os créditos iniciais trazem a informação lacunar - "um filme de:” - e aí são citados todos estes nomes, junto com o nome do Béla, misturado ali. Rancière diz que os filmes de Tarr são "construções de mundos sensíveis". Estes mundos não são construções de um homem só, mas de uma equipe de artistas, e Tarr ostentava essa consciência com orgulho. Dentre estes artistas, gostaria de destacar uma em especial, nessa ocasião: Ágnes Hranitzky.
Ágnes Hranitzky foi sua companheira de vida, co-diretora em diversos filmes, e montadora em sua maioria. Béla tem fama de ser rigoroso demais com sua equipe no set, mas a pessoa mais exigente era Ágnes. Era ela quem dava o crivo final em diversas instâncias. Dizem, em entrevistas, que normalmente era mais difícil agradar ela que o próprio Tarr. Ao ser questionada do porque ela não assinava a co-direção em todos os filmes, ela respondeu serenamente que o diretor era o Tarr, porque era ele o responsável pelas iniciativas criativas.
Béla e Ágnes estavam juntos, como casal e como dupla profissional, desde o primeiro filme. Nesse momento difícil de partida, meus sentimentos estão com Ágnes.
[1] Kovacs, András Balint. The Cinema of Béla Tarr: The Circle Closes, 2013
[2] Entrevista com Béla Tarr – https://www.youtube.com/watch?v=UhwHzGEYvMs
[3] Rancière, Jacques. Béla Tarr, le temps d'après, 2001.





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