Crítica - Uma Batalha Após a Outra
- João Marcos Albuquerque

- 27 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Muito se fala sobre a postura crítica de Paul Thomas Anderson alinhada à esquerda, ou sobre como este filme é uma representação aguçada da realidade social pautada na polarização política. Quanta baboseira.
A postura galhofeira do Anderson, ao fazer piada com tudo, ridicularizando todos os personagens, tratando da mesma forma jocosa tanto os "revolucionários" quanto os personagens de extrema-direita, acaba por equiparar-los. Essa postura é, para dizer no mínimo, conservadora, reacionária (e no limite, fascista).
Por se agarrarem em algumas ações dos personagens - os revolucionários lutando pela vida/liberdade; os extrema-direita lutando pela morte/aprisionamento - grande parte dos espectadores e da crítica deixa de perceber COMO estas ações nos são apresentadas. A própria forma do filme retira o sentido das ações que a princípio pareciam dar o sentido da narrativa. Em outras palavras: a forma (o como) parece, muitas vezes, contradizer o conteúdo (ação/narrativa). Quando a câmera desliza levianamente pelo campo de refugiados, ou pelo corredor abarrotado de imigrantes, sem dar a mínima atenção a eles, enquanto o tom que dita estas cenas varia entre uma tensão espalhafatosa e o patético, bufonesco e cartunesco, temos uma estetização desatinada e uma espetacularização vergonhosa dos corpos em sofrimento e do desejo de libertação dos mesmos. É preciso relembrar, mais uma vez (e até quando?), Godard: "o travelling é uma questão de moral". Escolhas de estilo são julgamentos morais que podem fazer o tiro sair pela culatra, ou revelar as verdadeiras intenções do filme. Se o seu tema é gravemente importante mas a sua ausência de ética cinematográfica se sobressai, temos um filme abjeto. Nesse aspecto, me lembrou Tropa de Elite: o desejo de elaborar uma denúncia crítica da violência foi sabotado pela própria espetacularização da violência, que acabou por enaltecê-la.
Colocar ambos (revolucionários e extrema-direita) no mesmo caixote, e pretender que a partir disso seja atingida uma representação-síntese dos espectros políticos polarizados da sociedade contemporânea, é loucura, burrice, grosseria ou canalhice. Poderia ser, com muita boa vontade, uma postura cínica, mas o cinismo exige um comprometimento ético e intelectual à sua maneira, portanto, para ter eficiência, demanda uma análise mais apurada e assertiva do cenário, e PTA se exime de qualquer comprometimento minimamente rigoroso, seja por incapacidade intelectual, covardia, ou porque isso simplesmente iria na contramão do projeto.
A ausência de nuances é um ponto que afirma o escapismo de PTA e ressalta essa parca apreensão de um suposto real que se manifestaria alegoricamente no absurdo das situações. A caricaturização de tudo e todos (a tal da suposta "sátira", do "absurdo" etc) perde seu caráter de deformação/estranhamento (e assim qualquer lampejo de sagacidade/agudeza/crítica) quando o mundo inteiro é representado da mesma maneira. A diegese de Uma Batalha Após a Outra é precária de mundo, pois esse é repleto de nuances, contradições, matizes, entrelinhas. A arte é aquela que enriquece o mundo, nunca o empobrece.
Uma Batalha Após a Outra não é uma radiografia clínica de nosso mundo, como muitos andam a repetir por aí, mas seu oposto: uma tentativa de domar o mundo à partir de simplificações estapafúrdias e empobrecedoras que só alimentam o obscuro desejo da direita (e no contexto estadunidense, tanto uma parcela dos liberals e democratas como dos republicanos) em tornar equivalente os desejos revolucionários e a sanha sadística pela morte e pelo extermínio típicos da extrema-direita.
Divertir-se, nesse cenário, significa estar de acordo com essa barbárie. O riso indiscriminado funciona como forma de conformismo, pois dissolve a capacidade de julgamento crítico. Um filme que convém, de forma brilhante, para Hollywood, pois que se disfarça (muito bem, para a maioria dos espectadores) de um filme humanista, que agrada à parcelas da esquerda e da direita, e que por isso mesmo é inofensivo.
O pior cenário advém: o filme não é uma representação-síntese da nossa sociedade, mas ele acaba por expor, a posteriori, a incapacidade do olhar em enxergar o óbvio.
Considerado, quase com unanimidade, por mídias e críticos anglófanos, brasileiros e franceses, como o melhor filme do ano, eu me pergunto: a unanimidade do gosto não seria o sintoma mais nauseante dessa cegueira generalizada?





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