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Crítica - O Agente Secreto

  • Foto do escritor: João Marcos Albuquerque
    João Marcos Albuquerque
  • há 5 dias
  • 4 min de leitura

Quando Marcelo (Wagner Moura) é apresentado ao seu novo apartamento por Dona Sebastiana (Tânia Maria), ele também conhece sua vizinha do andar superior, Cláudia (Hermila Guedes). Naquela ocasião, Dona Sebastiana diz que a mãe solteira é dentista. Por que é importante para o Kleber, e para nós, o conhecimento da profissão da vizinha?


Um pouco mais à frente, estamos na sala do empresário Ghirotti (Luciano Chirolli), que irá encomendar o assassinato de Marcelo à dupla de capangas. O empresário instrui, enquanto a câmera enquadra seu rosto, que deseja Marcelo morto com um buraco enorme na região da boca. Corta.


O plano seguinte é um plano detalhe da boca de Marcelo, aberta, sendo examinada pela dentista. A câmera dá a impressão de estar dentro da região almejada pelo crápula, que depois descobrimos ser a boca que desafiou o capitalista, que não se calou. A boca de Marcelo é tão letal quanto a boca do tubarão, uma boca poderosa pelo seu poder de escancaramento, de trazer à superfície o que deve ser mantido fora do alcance. A boca faz emergir a perna.


A perna, que nos primeiros planos do filme, através de um lento deslizar da câmera para a direita, abandona o fusca amarelo e nos revela os pés de um corpo inerte, índice de um assassinato e de um descaso. A única parte do corpo do primeiro morto que vemos no filme, pois descoberta pelas páginas de um jornal, é a perna. O jornal encobre a morte, a perna a descobre. 


Estamos agora na alfaiataria do alemão Hans, personagem interpretado pelo recém falecido Udo Kier, interpretando um judeu sobrevivente do holocausto. O delegado Euclides Cavalcanti (Robério Diógenes) ordena, numa ameaça reforçada pela jocosidade, que o alemão revele sua perna. A contragosto, Udo Kier mostra as cicatrizes de uma perna deformada pelos horrores de um passado que cisma em estar sempre presente, marcado na carne. Aproveitando-se do desgosto que fora submetido, ele emenda outra ação, talvez para tentar se assegurar de que ele ainda tem alguma agência nesse mundo, revelando sua barriga. Um corte na vertical, cicatrizes de um ventre que já teve suas entranhas expostas. Assim como o ventre do tubarão, que nos revelou a perna, não sem antes jorrar imensas quantidades de sangue ao ter o membro arrancado de seu interior.


Sangue, que jorrou dos rostos dos comparsas do delegado, ao serem assassinados, e que fluiu como um rio pútrido da perna do assassino, baleada. Mas o sangue também pode fluir para fora do corpo de forma voluntária, sem ser abjeto. É o sangue doado pela pesquisadora, sangue que ela empenha para descobrir esse passado ocultado de tão ensanguentado, sangue recolhido no hospital onde trabalha o filho de Marcelo, que diz não se lembrar do pai, mas que carrega dentro de si o seu sangue.


Pernas, bocas, barrigas, sangue. A dentista, que cuida das bocas, e o capitalista assassino, que as deseja silenciar, destruir. A barriga aberta do tubarão, que expõe um segredo, e a barriga costurada do alemão, que esconde outro segredo (sua provável sobrevivência de um campo de concentração). E a(s) perna(s), que revelam um dos assassinos (o mais fraco na cadeia alimentar do crime), que encerram dentro se si os mistérios de tantas violências da ditadura, que agridem homossexuais, que roubam outras pernas do IML, que são transformadas em folclore, mito, história, pernas que evidenciam o esquartejamento de uma Nação, mas que persistem no caminhar, mesmo separadas de seu corpo.


Bocas, pernas, barrigas, sangue esta é a fenomenologia da carne de O Agente Secreto, que traduz na sua concretude carnal a abstração das ideias de Revelação, Segredo, Cuidado, Proteção, Horror, Medo, Memória, Esquecimento, em suma: Vida e Morte. Assistir à O Agente Secreto é caminhar pelas ruas de Recife sempre tencionado por estes polos que regem o destino de nosso protagonista.


Ah, e antes que eu me esqueça, é preciso falar da alegria, é hora de voltarmos ao primeiro parágrafo, voltarmos à dentista. Já ficou claro, pelo menos em um aspecto, a razão de sabermos sua profissão. Mas agora eu quero destacar outra concepção, esta situada no coração da obra, dedicada à alegria, mas não a qualquer tipo de alegria, e sim uma bem específica: a cinefilia. A razão para Kleber Mendonça Filho nos salientar a profissão da vizinha não é outra senão a paixão pela forma, força motriz do cinema. Kleber indica a profissão da vizinha para no futuro poder fazer um raccord a partir da boca, um raccord que irá suturar o corte e assim contrapor em um lindo senso de continuidade o desejo pelo buraco na boca de Marcelo com a boca do Marcelo aberta sendo cuidada pela dentista (afinal, como justificar essa cena, se a vizinha não fosse dentista?). Vida e morte em um único corte, encarnando, de maneira brilhante, todo o espírito que anima a obra. Melhor dizendo: não o corte em si, mas como já mencionei, a sua sutura. O amor de Kleber pelo cinema está expresso, indelevelmente, no seu gesto de sutura, pois de cortes abertos, basta a nossa nação.

 
 
 

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© Filmes Cuti 2022 - Criado por João Marcos Albuquerque

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