Fruto do Paraíso (1970) - Crítica
- João Marcos Albuquerque

- há 2 horas
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São poucos os cineastas que conseguem imprimir um senso de novidade e descoberta a cada novo plano, em cada enquadramento, atuação, corte, em cada movimento no espaço e no tempo, em cada composição imagética, sonora e na relação entre ambas, em suma: na criação de um mundo cinematográfico com suas próprias leis, cores, lógicas, texturas, movimentos, relações e coordenadas espaçotemporais.
Estamos em um outro terreno (mito? fábula? alegoria? religião? cinema?) cuja outridade não nos permite entender os acontecimentos de acordo com a lógica narrativa imperante de causa e efeito, mas percebemos os caminhos e desvios pela figuração: há perseguições e fugas, ingenuidade e malícia, há jogos de poder e sedução, há desejos e medos, flertes e brigas, brincadeiras e seriedades, mortes e vidas, investigações, intrusões, descobertas - há um mundo sendo desbravado como se pela primeira vez, pelos personagens e pelo espectador, onde apenas percebe-se os movimentos, os gestos, as iniciativas, antes delas adquirirem um sentido. Todo o filme parece se desenrolar como se durante a degustação da primeira mordida na maçã, onde tudo se apresenta como novo, misterioso e sedutor.
A série de técnicas empregadas por Chytilova (slow motion, sobreposições, step printing etc) nada mais são do que formas de escapar do realismo, estranhando o familiar, comum à prática surrealista. Se estamos em um outro mundo, num momento derradeiro de desvelamento, as figuras que atravessam os planos são reconhecíveis, ainda pertencem ao nosso mundo (homem, mulher, pedra, chave, casa etc), e portanto, precisam ser reconfiguradas. É por isso que uma pedra não é mais uma pedra (Cecí n'est pas un pipe), e um longo pedaço de tecido vermelho impõe o amor. Vera dá um novo sentido aos objetos - é importante compreender que, na diegese, é o tecido vermelho que faz Eva se apaixonar, logo, o tecido vermelho não é somente uma representação poética para a imposição do amor, uma alegoria, metáfora ou algo do tipo, mas algo outro dotado da capacidade de enfeitiçar, apaixonar. E a valise vermelha? E todas as frutas? E a bicicleta? A resposta não importa, porque o filme está no deleite que torna possível formular estas perguntas, sendo a última e mais importante delas a seguinte: e o filme?




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