O SilĂȘncio (1963) - CrĂtica
- JoĂŁo Marcos Albuquerque
- 5 de abr. de 2025
- 2 min de leitura
Obra rarefeita e inquietante, construĂda a partir daquilo que nĂŁo se diz â e que, no entanto, reverbera com uma força quase insuportĂĄvel. O filme acompanha duas irmĂŁs e um menino em uma cidade estrangeira, suspensa entre guerra, desejo e decadĂȘncia. O que mais impressiona nĂŁo Ă© o que acontece, mas como Bergman filma o vazio entre os corpos, a opressĂŁo dos espaços, a tensĂŁo nĂŁo resolvida dos gestos e dos silĂȘncios. A narrativa progride como um sonho mal digerido, em que os afetos reprimidos se condensam na arquitetura, nos sons abafados e na espera estĂ©ril.
A encenação Ă© absolutamente precisa e rigorosa, e Ă© por meio dela que o filme se torna tĂŁo sufocante quanto belo. O uso da luz, das texturas e dos enquadramentos claustrofĂłbicos transforma o hotel â esse nĂŁo-lugar quase labirĂntico â em um espelho deformado do interior das personagens. Cada cena carrega uma atmosfera crepuscular, como se o mundo estivesse se dissolvendo lentamente, consumido pela incomunicabilidade, pela culpa e pelo desejo nĂŁo dito. A sexualidade irrompe nĂŁo como prazer, mas como angĂșstia, compulsĂŁo ou provocação â uma forma de tentar furar o silĂȘncio entre os corpos, sempre em vĂŁo.
HĂĄ um componente onĂrico constante: a cidade estrangeira fala uma lĂngua incompreensĂvel, os militares marcham em segundo plano como fantasmas do passado, e o menino perambula como uma figura da inocĂȘncia perdida, ou do olhar que ainda tenta dar sentido ao que vĂȘ. A crise entre as duas irmĂŁs Ă© tambĂ©m a crise da linguagem, da intimidade e da representação. O silĂȘncio do tĂtulo nĂŁo Ă© apenas o silĂȘncio de Deus, como jĂĄ foi dito, mas o silĂȘncio entre os vivos â o abismo entre as almas.
A sequĂȘncia final, com a personagem de Ingrid Thulin tomada por uma espĂ©cie de asfixia existencial, Ă© uma das mais aterradoras do cinema bergmaniano. NĂŁo hĂĄ grito, nĂŁo hĂĄ desfecho, apenas um corpo prestes a se romper, como se a dor nĂŁo coubesse mais dentro da pele. O SilĂȘncio Ă© um filme sobre a falĂȘncia das palavras, da famĂlia, da fĂ© â e ao mesmo tempo, um dos exemplos mais belos de como o cinema pode dar forma a esses colapsos atravĂ©s da encenação.
