Contos Cruéis da Juventude (1960) - Crítica
- João Marcos Albuquerque

- há 12 minutos
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Imagem cintilante, com a textura e as cores que só essa combinação muito rara do GrandScope da Shochiku, com a película Fujicolor, com o diretor de fotografia Takashi Kawamata, sob a direção de Nagisa Oshima, podem proporcionar. Das imagens mais pulsantes, deslumbrantes e reluzentes da década de 1960.
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Um homem descansa uma maçã no colo de uma mulher, deitada inconsciente após a realização de um aborto. O homem pega outra maçã e a leva para sua boca. A cena é iluminada num chiaroscuro de forma a preencher o fundo e outras parcelas da imagem com escuridão, enquanto feixes de luz deslizam sobre o rosto do rapaz, dourando a pele, destacando os lábios, a maçã, amargurando o olhar. O plano é um close deste rosto, desta maçã, desta luz que incide e salpica o homem, o desenhando segundo suas vontades. O plano se dilata, se estende no tempo. Acompanhamos a ação literal do homem comendo a maçã, da primeira até a última mordida. No trajeto que leva a maçã de sua rotundidade para o magro miolo, entre as mordidas e a mastigação, o olhar assustador do jovem rapaz que não se desvia, nem pisca, encarando seu interior - o personagem, ao olhar para si, nos faz ver o que resiste na tela: um rosto, um olhar, uma maçã, um dourado, um negrume, uma mastigação. A imagem vai adquirindo, a cada nova mordida, uma dimensão mitológica, profundamente lírica, poética e fatalista. É como Ingrid Bergman, a cada novo passo, em cada hesitação, ao encarar o vulcão em Stromboli - cenas que tem o poder da revelação.
O olhar do homem, que se vira para dentro, contempla um espírito frustrado, perdido e raivoso, que é também o espírito de um tempo, um espírito coletivo, uma nação, uma juventude. Acompanhar a deglutição da maçã é observar a decomposição e a decadência desse espírito, desse tempo, dessa juventude, portanto, uma síntese de todo o filme. É vivenciar o Crepúsculo, é espreitar as trevas que espreitam da escuridão (do quarto, da alma). A cena adquire, portanto, aquela capacidade indelével dos maiores filmes, transmutando o visível em ideias, mitos. Ao mesmo tempo em que este plano nos faz ver o invisível, abrindo nosso olhar e nos fazendo enxergar como se víssemos todo um mundo pela primeira vez (a maçã, o paraíso perdido), não conseguimos perder de vista a magnitude daquilo que se apresenta diante de nossos olhos: a incandescência da maçã, o rosto rajado pela luz dourada, os olhos que nos convidam a penetrá-los, enfim, toda a vida que pulsa irrefreável e vulnerável na superfície da imagem. Ao nos fazer ver, ao nos dar a visão, contemplamos o cinema em sua profusão.




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