Tod Und Teufel - Crítica

Assim como em Othon, dos Straub-Huillet, meus sentidos foram despertados para a percepção de um elemento da composição que se manifestou a mim como se conjurado pela primeira vez, mesmo este elemento estando presente em quase todo filme narrativo. Em Othon: a dicção, a entonação, a voz como matéria modulável, dotada de ritmo e musicalidade, capaz de ser ela mesma a força motriz de um filme. Em Tod und Teufel: o close nos rostos, revelando o lado oculto da fisionomia - a escala e a duração dos planos produzem uma mudança qualitativa do objeto rosto, que deixa de operar primordialmente como rosto, isto é, como suporte de identidade, psicologia, reconhecimento e expressão, e se apresenta como matéria infinita e incomensurável.
O rosto, matéria cinematográfica por excelência, matéria centrípeta, cuja gravidade é tão intensa que puxa para si o close, aqui exerce um poder de atração nunca antes concebido - um buraco negro que engole não só todo o espaço do quadro, mas também o tempo.
Nessa exegese do rosto, cada poro salta aos olhos, cada ruga, cada vinco, cada dobra da pele. A testa, as têmporas, as sobrancelhas, as pálpebras, as órbitas dos olhos, as maçãs, as narinas, os sulcos que descem do nariz à boca, os lábios, o maxilar, o queixo: toda a topografia da face se torna perceptível. Sob a pele, adivinhamos ainda os músculos e os ossos que lhe dão sustentação, tensionando-a, distendendo-a, fazendo-a contrair-se ou relaxar. Nunca se filmou um rosto dessa forma; logo, nunca vimos um rosto dessa forma. A menor mudança na incidência da luz o transforma brutalmente: ora faz emergir as maçãs e acentua o relevo dos ossos, ora cava as órbitas e faz o olhar despencar nas sombras; ora aplaina a face, ora lhe devolve profundidade. Da mesma maneira, uma contração quase imperceptível dos lábios, o retesamento do maxilar, o arqueamento de uma sobrancelha, o estreitamento das pálpebras ou uma mínima tensão nas bochechas bastam para contorcê-lo, deformá-lo, transformá-lo. O rosto torna-se uma composição infinitamente variável. Por vezes, acaba se abstraindo, tornando-se luz e sombra, forma e volume, cor e textura, esboço e grafia, geometria e geografia, paisagem. Por outras, imbui-se de tamanha concretude que se torna um busto, uma escultura em movimento, um monumento vivo. Nesse jogo de permutações entre o abstrato e o concreto, sobressai a metafísica do rosto: prisma que projeta e sobre o qual se projetam outros prismas; portanto, projetor e tela. É por isso que cabe todo um filme no close de um rosto: porque o rosto é o próprio cinema




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