top of page

Os Donos da Noite (2007) - Crítica

Foto do escritor: João Marcos Albuquerque
João Marcos Albuquerque
há 2 dias
3 min de leitura

O crepúsculo: a noite ainda não chegou e o dia ainda não se foi. O sol, já abaixo do horizonte, ilumina o mundo com uma luz dourada, própria desse intervalo, alaranjando as superfícies enquanto as sombras crescem e se alongam.

 

Os Donos da Noite é um filme crepuscular. Suas cenas podem ocorrer de dia ou à noite, pouco importa. A luz que domina esse mundo parece sempre pertencer a esse instante intermediário. Interiores e exteriores são banhados por tons dourados, ocres e alaranjados. Nos primeiros filmes de James Gray, o mundo existe sob essa incidência incandescente: personagens e objetos são iluminados pela luz de uma realidade que está prestes a desaparecer nas sombras.

 

O crepúsculo é também o tempo narrativo do filme, o tempo interior de seus personagens. É o tempo da transformação. Eles estão colocados entre o dia e a noite, agarrados àquilo que ainda resta do dia, embora a chegada da noite seja inevitável. Talvez esteja aí a dimensão trágica do primeiro cinema de Gray: o crepúsculo é uma passagem cuja travessia implica uma perda.

 

Por ser passagem, o crepúsculo é também um entre: intervalo, suspensão, tempo provisório. Um instante que se esforça para se prolongar ao máximo, pois carrega em si a certeza de seu fim. Há uma cena que condensa de maneira extraordinária essa lógica. Bobby, personagem de Joaquin Phoenix, entra no laboratório de drogas conduzido pelo traficante russo. O homem segue à sua frente e pouco a pouco desaparece na escuridão do espaço. Bobby ainda está a poucos passos de penetrar naquele negrume, e é justamente nesse intervalo que Gray dilata o tempo. O ar fica pesado, a respiração se torna mais difícil, cada movimento ganha densidade. Nada ali é “leve como uma pena".

 

São nesses momentos suspensos que o cinema de Gray encontra uma gravidade muito particular. A ação está prestes a irromper, mas a cena é tanto sobre a ação quanto sobre sua ameaça. O tempo anterior ao acontecimento torna-se tão grave quanto o próprio acontecimento. Gray prolonga a espera, e ao criar o suspense, deixamos de observar o personagem amedrontado para experimentarmos nós mesmos este medo. E quando digo que o ar ganha densidade e que a respiração pesa, não me refiro apenas ao que acontece com Bobby. Gray opera uma transferência entre personagem e espectador que poucos cineastas são capazes de realizar (e talvez, no cinema de estúdio dos EUA neste período, só ele). Somos conduzidos para dentro da cena mediados pela subjetividade do protagonista: o espaço se torna psicológico, e a duração, afetiva. Vemos Bobby atravessar aquele limiar e atravessamos com ele.

 

O crepúsculo é travessia. Essa travessia organiza todo o arco do personagem. No início do filme, aquilo que importa para Bobby é sobretudo sua vida com Amada; a família ocupa um lugar secundário. Ao final, a configuração se inverte: ele recupera a família e perde Amada. Entre uma situação e outra, o crepúsculo.

 

O crepúsculo de James Gray é também um tempo que exige tomadas urgentes de decisões sob fortes emoções, o que frequentemente torna seus personagens menos agentes do que reféns de suas escolhas. O crepúsculo é esse momento onde seus personagens são obrigados a contemplar seus mundos em vias de desaparecimento, como na cena final de Os Donos da Noite, quando Bobby enxerga Amada sentada em meio à multidão, e num literal piscar de olhos, Amada já desapareceu.

 

O central no primeiro Gray é o crepúsculo, que se manifesta pela forma e pelo conteúdo. Creio ser o crepúsculo o responsável pelo lirismo de Gray, que tanto nos emociona.

 
 
 

Comentários


© Filmes Cuti 2022 - Criado por João Marcos Albuquerque

  • Branca Ícone Instagram
bottom of page